ENSINA-OS A ORAR



O planalto da Judéia se eleva naquele local a quase 830 metros acima do nível do mar, sendo ali o seu ponto culminante. Ephrém é região bucólica, onde os damasqueiros se arrebentam em flores, se vestem de frutos, e as tulipas se multiplicam em campos verdejantes com a abundância do sol dourado, cujos poentes se demoram em fímbrias coloridas, contrastando com as sombras das noites em vitória...
A aldeia de Ephrém ou Efraim é um amontoado de casas singelas entre flores silvestres e roseiras variadas, situando-se sobre um largo terraço fértil do planalto árido, onde, no entanto, abundam nascentes cantantes e de cujas bordas se avistam no longo vale que se esconde em baixo das imensas costas talhadas a pique em alcantis, pelo lado do Moab, o tranqüilo Jordão e o mar Morto. Dali, a visão dos horizontes é um convite à meditação, fazendo que o homem se apequene ante a grandeza de Deus.
Naquela paisagem tudo são convites às coisas divinas. Nesse plano de exuberante beleza, o Mestre elucida os companheiros fiéis, quanto à comunhão com o Pai. Já lhes falara diversas vezes sobre a necessidade da oração e em muitas ocasiões deles se apartara para o silêncio da prece. Ensimesmado, freqüentemente buscava a soledade para a ligação com Deus. através desse ministério ardente e apaixonado.
* * *
Os livros da fé ancestral, todos eles, se reportam à exaltação do Senhor, mediante o "abrir a boca" da alma e falar aos divinos ouvidos. Aquela será a última primavera que passariam juntos. Os colóquios, as lições serão interrompidos, Êle o sabe. Ministra as últimas instruções. O Cordeiro inocente logo mais deverá marchar na direção do matadouro. Quanto há, no entanto, ainda, a dizer! São "crianças espirituais" aqueles companheiros, bulhentos e sem a noção exata do que lhes será pedido.
O tempo urge!
As Suas vigílias são maiores e Seus solilóquios mais demorados.
* * *
Retornava desse colóquio, e a placidez da face denotava a vitalidade haurida no intercâmbio com o Pai...
Os discípulos aguardam-No com carinho, ansiedade, e inquirem-No quanto à melhor forma de orar, como dizer todos os ditos da alma Àquele que é a Vida e que sabe das necessidades de cada um em particular e de todos simultaneamente...
Havia, sim, em todos, o desejo veemente de aprender com o Rabi, — que tantas lições lhes dispensara antes com invulgar sabedoria! — a mais eficiente das orações.
Inquiriam, porém: "se Deus nos conhece e sabe o de que temos maior urgência, por que se há de Lh'o rogar? Como fazê-lo, então?"
— "Ensina-nos a orar!" — pediu um dos discípulos, amigo devotado.
Seus olhos estavam incendiados de luz e nele havia aquela confiança pura da criança que se entrega em total doação e aguarda em tranqüilidade enobrecida.
O Mestre relanceou o olhar pelas faces expectantes daqueles que O buscavam seguir e desejavam adquirir forças para, no futuro, se entregarem inteiramente ao Evangelho nascente; depois de sentir as ânsias que através dos tempos estrugiriam nos continuadores da Sua Doutrina, pelos caminhos do futuro, sintetizou as necessidades humanas em sete versos, os mais simples e harmoniosos que os humanos ouvidos jamais escutaram, proferindo a oração dominical.
As frases melódicas cantaram delicadas através dos Seus lábios como se um coral angélico ao longe modulasse um cantochão de incomparável melodia, acompanhando suavemente.
Uma invocação:
"Pai Nosso que estás nos Céus;" (*)
Glorificação d'Aquele que é a vida da vida, Causa Causica do existir, Natureza da Natureza Nosso Pai!
Três desejos do ser na direção da Vida, após a referência sublime ao Doador de Bênçãos:
"Santificado seja o Teu Nome.
"Venha a nós o Teu Reino,
"Seja feita a Tua vontade, na terra como no céu;"
Eloqüentes expressões de reconhecimento ao Altíssimo; humildade e submissão da alma que ora e se subordina às inexauríveis fontes da Mercê Excelsa; entrega total, em confiança
ilimitada. Exaltação do Pai nas dimensões imensuráveis do Universo; respeito à grandeza da Sua Criação, através da alta consideração ao Seu Nome; resignação atual diante das Suas determinações divinas e divina presciência.
Canto de amor e abnegação!
Três rogativas, em que o homem compreende a própria pequenez e se levanta, súplice, confiante, porém, em que lhe não será negado nada daquilo que solicita:
"O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje;
"Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores;
"Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos de todo o mal."
A base da manutenção do corpo é o alimento sadio, diário, equilibrado, tanto quanto a vitalidade do espírito é a sintonia com as energias transcendentes 
dános hoje! Sustento para a matéria e força para o espírito, de modo a prosseguir no roteiro de redenção, no qual exercita as experiências evolutivas.
Reconhecimento dos erros, equívocos e danos causados a si mesmo e ao próximo 
perdoa-nos!, — ensejando reparação, através da oportunidade de refazer e recomeçar sem desânimo, superando-se e ajudando aos que nos são vítimas
como perdoamos aos que nos devem!.. Forças para as fraquezas, em forma de misericórdia de acréscimo, multiplicando as construções das células e das energias
espirituais; reconhecimento das incontáveis fragilidades que a cada instante nos sitiam e nos surpreendem 
livra-nos de todo o mal!
* * *
A musicalidade sublime canta em balada formosa na pauta da Natureza, conduzida pelo vento.
A mais singela, a mais completa oração jamais enunciada.
Há emoções nos espíritos que reconhecem a responsabilidade de conduzirem o sublime legado na direção do futuro.
A ponte de intercâmbio entre os dois planos do mundo está lançada. Transitarão, agora, as forças mantenedoras do equilíbrio.
"Pedi e dar-se-vos-á;" — exorou o Pomicultor Divino.
"Ensina-nos a orar!" — rogara o discípulo ansioso.
As virações daquela hora embalsamam o ar de mil odores sutis e constantes, e há festa nos corações.
O Reino de Deus está, agora, mais próximo. Divisam-se os seus limites e se vislumbram as suas construções...
Nenhum abismo, nenhum óbice. Vencidas as indecisões, os caminhos se abrem, convidativos, oferecendo o intercâmbio. Aqueles homens que se levantarão logo mais da insignificância que os limita e irão avançar no rumo do infinito, doravante, orando, estarão em comunhão
permanente com o Pai.
O homem sobe ao Pai no Céu — o Pai desce ao homem na Terra.
Já não há um díptico.
Do solilóquio chega-se ao diálogo.
E do diálogo o espírito sai refeito, num grande silêncio de paz e vitalidade, exaltando o amor de Deus na potencialidade inexcedível da oração.
"Ensina-nos a orar!"
"Pai Nosso que estás nos Céus..."

***
(*) Conquanto as divergências entre os textos de Mateus (6:9-15) e Lucas (11:1-4) preferimos as anotações do primeiro, embora aquele situasse a preciosa oração, em continuidade ao Sermão do Monte. Assim o fazemos, considerando a métrica e o ritmo que se observam nas narrações das línguas semitas e por registrar a omissão de todo um verso nas anotações de Lucas. Outrossim, tomamos como lugar da ocorrência as circunvizinhanças da aldeia de Ephrém ou Efraim ao invés do Monte das Oliveiras, conforme a situam diversos exegetas e historiadores escriturísticos.
Nota da Autora
.
Do livro: Luz do Mundo - Amélia Rodrigues - Psicografia de Divaldo P. Franco

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